O padre Ramon, missionário na Costa do Marfim, vê Deus no cotidiano e na guerra!

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«Estivemos 4 meses isolados e 9 sem sair da paróquia»

O padre Ramon, missionário na Costa do Marfim, vê Deus no cotidiano e na guerra!

El padre Ramón, misionero en Costa de Marfil, ve a Dios en lo cotidiano ¡y en la guerra!

O padre Ramon, missionário da Consolata, com um dos policiais ou guardas tradicionais nas zonas auríferas da Costa do Marfim

P. J. Gines/ReL- 18 outubro 2013-religionenlibertad.com

O padre Ramon Lázaro Esnaola é un cidadão de Saragoça de 46 anos, missionário da Consolata na Costa do Marfim, país que chegou em 2001, um ano antes de começar a chamada “Primeira Guerra Civil da Costa do Marfim”, que causou uns 3.000 mortos e mais de 700.000 desalojados.

Neste país lhe deram o nome que usa cotidianamente, Korona, que na língua senufo significa “Fica”.

Menos de mil cristãos na região
“Vivo em um raio de uns 60 km entre Marandallah e Dianra Village, na diocese de Odienne, a uns 525 km da capital econômica da Costa do Marfim, no noroeste da Costa do Marfim. Em 70% de nossa região são muçulmanos, 25% segue a religião tradicional e uns 5% são cristãos. E dentro deste grupo o número de batistas é ligeiramente superior ao número de católicos”.

“Por isso, nossas paróquias e comunidades cristãs são pequenas. O número de batizados de Marandallah não creio que chegue a 100. E os catecúmenos serão outros 100. Depois vem os simpatizantes, os que provam, que serão quem sabe também uns 100. Em Dianra Village, os números são um pouco mais altos porque a região é mais povoada mas não creio que cheguem a 1000 todos os grupos somados”, explica para ReL.

Saúde, diálogo, evangelização

O trabalho dos missionários da Consolata nesta região do norte do país tem 7 ideais:

– o diálogo com as pessonas de outras religiões;
– a saúde, através de centros sanitários, que administra Ramon, distante 2 horas de Land Cruiser
– a alfabetização e o apoio escolar;
– a promoção da mulher através dos micro-créditos;
– as visitas às aldeias onde ninguém ainda compartilhou a fé cristã,
– a pastoral paroquial ordinária
– e a promoção da juventude através da formação de apicultores.

Muito trabalho para os missionários, mas muito gratificante, dizem eles.

3 pilares: Deus, a comunidade, os pobres
“Ser missionário para toda a vida é muito bonito se se sente que é seu lugar no mundo; mas se se quer só fazer algo pelos outros é melhor que entre em uma ONG ou em algum organismo de cooperação”, pontualiza o padre Ramon.

“Eu me apoio em três pilares: Deus, a comunidade e os pobres. Se falha um, o tripé cai. O missionário vive certa solidão, mesmo que se trate com muita gente, porque existe muitos sentimentos que se vive que são difíceis de comunicar quando partimos de horizontes culturais distintos. Sim, eu já levo mais de doze anos por cá, falo a língua local… mas existe distâncias que não se podem salvar. Por outro lado, a missão não são façanhas de super-homens, mas uma vida cotidiana como a de qualquer espanhol”.

O cotidiano às vezes se vê alterado, por exemplo pela guerra.

Ramon chegou à Costa do Marfim em 2001. “O golpe de calor ao sair do avião foi brutal. Parecia que me faltava o ar para respirar. Estive três meses em uma missão dos Missionários da África para aprender o senufo e cheguei depois a Dianra, onde fiquei até julho de 2008. Ali tive a imensa sorte de começar uma nova missão junto de Flávio, um missionário italiano, e Michael, queniano. Dois verdadeiros irmãos, amigos e homens de Deus”.

O ruído das balas reais

“Em setembro de 2002 começou a rebelião e lá aguentamos o temporal, com medo no corpo e muita confiança em Deus. Escutava o ruído das balas reais. Aprendi a dormir escutando esses tiros. E descobri que ser missionário valia a pena: descobri que só minha simples presença já dava consolo às pessoas”.

Foram meses muito difíceis: “Durante quatro meses Michael e eu vivemos completamente isolados. Nem nossas famílias, nem os missionários da Consolata, nem a embaixada sabiam nada de nós durante esse tempo. E estivemos nove meses sem poder sair da paróquia. Foi um tempo de graça em que toquei de perto meus limites, minhas debilidades, meus medos. Porém, ao mesmo tempo, o Bom Deus me fez aprofundar minha fé, minha esperança e meu amor por este povo”.

De fato, antes de começar as hostilidades, Ramon havia vivido naquela que seria sua experiência “de mais medo” em sua vida missionária.

Os assaltantes nos puseram deitados na terra”
“Foi em 2001, antes do início da guerra. Estava uns dez meses em Dianra e em uma viagem, uns salteadores nos puseram deitados na terra durante mais de três horas. Eu não sabia se tudo ia acabar ali ou ia passar. Parece mentira mas esta experiência me ajudou muito a viver o tempo da guerra e a saber falar e comportar-me com os rebeldes. Houveram muitos momentos de tensão porque decidimos não dar dinheiro nos controles que punham os rebeldes e isso implicava discussões sem fim, enquanto Michael e eu percorríamos as aldeias de bicicleta porque não tínhamos dinheiro para a gasolina da moto”.

As coisas se normalizaram (“um pouco mais”) a partir de 2007. “Que eu saiba, fomos a única missão do norte da Costa do Marfim onde os rebeldes não entraram e, segundo o que eu sei, o mérito tem que atribuir à população local que veio para dizer que “tocar nos missionários é como tocar a nós”. Vivemos uma comunhão com o povo que ainda hoje lembram e valorizam”.

Crianças que morrem

Quando a um missionário em um país pobre se pede que fale de um momento triste de sua vida missionária, a maioria recorda a morte de crianças. “Recordo especialmente as duas crianças que perdeu Jacqueline em um espaço de menos de quatro meses em Dianra em 2003, em plena guerra. Foi muito difícil ser consolo em meio dessa situação. Também o falecimento de Maitane, uma jovem que acompanhei em Madri e que faleceu em pouco tempo que eu cheguei na Costa do Marfim me marcou. Fez-me crescer em resistência e esperança”.

Joseph Kolo, baleado por se converter

Não é tão frequente encontrar um missionário que tenha vivido o assassinato de um fiel por sua fé, por ter-se convertido para Cristo. Mas na Costa de Marfil acontece.

“O assassinato de Joseph Kolo foi um dos momentos mais tristes de meus primeiros anos. Foi em 2003. Joseph foi um dos primeiros cristãos de Dianra junto com sua mulher e toda sua família. Nesse tempo era o presidente da comunidade e tínhamos muita relação. Joseph não queria que seus filhos fizessem o “poro”, o rito de iniciação dos senufo, que dura 7 anos, porque já eram cristãos.Porém sua própria família não perdoou essa atitude e contratou um atirador para assassiná-lo. E assim morreu deixando sua mulher viúva e com a carga de 7 filhos”.

“Essa noite não dormi nada. Estava só na missão porque meu companheiro Michael estava no Quênia de férias com sua família. Passei toda a noite ao lado de Odete, tentando consolá-la. No dia seguinte, a igreja estava cheia de gente de todas as religiões e confissões porque queriam dar o último adeus a um mártir da fé”.
Deus está em toda parte

Na África, dizem os missionários, Deus está onipresente. Ramon o “vê” em toda parte: “no sorriso de uma mulher que está carregada de lenha na cabeça e com uma criança nas costas. Esse sorriso vem de Deus, vem de uma esperança e de uma resistência incríveis. Vejo Deus na força de uma família para sobrepor-se ao falecimento de um filho ou uma filha. É impressionante a força da fé, o agradecimento de quem vem para dar os pêsames ficando toda a noite dançando em torno do corpo que jaz e preside ao mesmo tempo”.

Mas há momentos em que Deus parece dar um toque especial.

Os missionários que ninguém esperava
“Certamente, durante a guerra houve momentos muito singulares. Um deles foi quando Michael me disse que nos restava dinheiro para um mês e meio e que depois teríamos que ser obrigados a fugir pelo Mali porque não teríamos para chegar até Abidjan. Na semana seguinte, eu fui de bicicleta a uma aldeia situada a 50 km de Dianra por uma estrada de terra. Na volta, quase exausto, vi que três missionários da Consolata do sul vieram para ver como “estávamos”. Foi providencial porque sua visita nos permitiu ficar ao lado de nosso povo”

A mochila perdida cheia de dinheiro

“Outra história aconteceu na Páscoa de 2003, quando eu voltava de bicicleta de uma aldeia situada a uns 27 km depois de ter passado toda uma semana lá, quase exausto das celebrações, batismos, danças, vigílias, etc. Nesse tempo, todos os cristãos aproveitam para dar seu aporte anual à igreja. Assim que voltava com os carnês de batismo de todo o mundo e com bastante dinheiro tendo em conta que estávamos em plena guerra e que tudo era muito complicado”

“Pois bem, quando já estava a uns 5 km de Dianra, percebi que o saco que levava tudo isso tinha se desamarrado e tinha caído pelo caminho. Então me vi obrigado a dar marcha-ré e regressar à aldeia de onde vinha para ver se via o saco. A busca foi em vão. Não vi nada. Cheguei à aldeia e eu não podia nem com minha alma e todos estavam desanimados diante do sucedido porque eu tinha perdido também o missal que tinha traduzido para senufo. Pus-me a dormir exausto e, no dia seguinte, me pus de novo a caminho para Dianra. Quando cheguei à missão contei tudo a Michael. Quando terminei, entregou meu saco com tudo o que levava dentro. Disse-me que um muçulmano o tinha encontrado pelo chão! Como viu minha alva, supôs que era meu, então deu para uma cristã da aldeia que o fez ver antes que eu chegasse.”

Um pecado nacional: a inveja

Por outro lado, é curioso que em um país pobre como Costa do Marfim, Ramon chegue à conclusão de que “talvez o pecado capital nesta região seja a inveja. Parece que alguém se sente mal que o outro progride na vida e vai bem. Isto está muito enraizado por aqui e, na verdade, a mim me incomoda muito. Meu pai sempre me ensinou que sua maior alegria era que eu pudesse chegar um pouco mais longe que ele. Inclusive etimologicamente a palavra senufo para “inveja” significa “me irrita que te vá bem”. É muito forte!”

Retórica do perdão

Se em muitos países africanos a vingança é algo bem visto e muitas culturas a exigem e alentam, na Costa do Marfim passa algo bastante distinto: há muita retórica de perdão, às vezes vazia.

“O perdão é uma palavra demasiado utilizada na Costa do Marfim”, afirma o missionário, exigente. “Para ser sincero, eu gustaria de proclamar um ano de não utilização desta palavra para que encontrássemos outras formas de ir à raíz do perdão e reconciliação. No II Sínodo dos Bispos da África nos pediram que aprofundássemos as formas tradicionais de perdão e reconciliação. Entre os senufo isto se faz sobretudo através da palavra, a exteriorização do vivido na presença da comunidade, o respeito e a escuta dos mais velhos da comunidade e da aceitação pública dos males causados. Pode haver situações em que se exige que uma refeição seja organizada entre as partes em litígio para alcançar a reconciliação.

Estas ações recordam as refeições de Jesus com “pecadores e publicanos” que tanto escandalizaram os “membros da pureza judia”. Poderiam se atualizar plenamente em uma visão e ação eucarística onde a comunhão da comunidade-família de Deus, tem uma praça singular”.

Exercícios espirituais com jesuítas

Ramon começa a ficar longe daquele jovem de 16 anos que era quando sentiu o primeiro chamado de Deus à vida missionária. “Um jesuíta que conhecia foi ao Equador e me pôs em contato con outros jovens de lá, e a partir daí, o bichinho da missão começou a ´mexer comigo´. Quando fiz COU (não sei como se chama agora) estive em meus primeiros Exercícios Espirituais em Sant Cugat del Valles, durante a Páscoa de 1985, também com um jesuíta.. Esta experiência me marcou e vi de uma forma “clara e distinta” que queria orientar minha vida a partir da missão. O texto da chamada dos quatro primeiros discípulos e o texto das Bem aventuranças me sugeriram que tudo isso era para mim”.

Saindo com uma garota

Pouco depois começou a sair com uma garota que se chamava Mª Mar e que também tinha interesse pelo “Sul” e a luta contra a pobreza em outros países. Com ela, por exemplo, fui seu primeiro contato na África: uma visita a Marrocos em 1986, a Meknés, para levar um eletro-cardiograma de Mãos Unidas a um missionário franciscano.

“Colaborar com a Ação Solidária Aragonesa, uma ONG que nasceu em Saragoça em 1984, me ajudou a ver a cooperação com outros olhos. E, logo, o estilo dos missionários da Consolata em Saragoça muito me chamou a atenção: muito próximos a nós, com algumas visões eclesiais muito parecidas com as que eu sentia em meu coração e, sobretudo, muito perto dos pobres, em pleno bairro da Magdalena. Formei parte da primeira comunidade de leigos da Consolata de Saragoça. Foram dois anos preciosos em que a vida comunitária me pareceu a forma que o Bom Deus me chamava. Eu gostava de orar na cripta de Sta. Ingrácia de Saragoça, ao lado da turma dos mártires. A oração me interpelava”.

“Sentia que o Bom Deus me abria um caminho que para ser sincero eu não tinha muita vontade de percorrer. Com Maria Mar estive junto uns dois anos mas vimos que tínhamos estilos diferentes e decidimos deixá-lo, não sem dor. E chegou o dia em que decidi dar o salto no vazio. Eu gosto de dizer que minha vocação foi um pulsar entre Deus e eu e… ganhou Deus! Tinha 22 anos”.

Para conhecer mais sobre a vida de Ramon na Costa do Marfim:

http://www.koronacotedivoire.blogspot.com
No Twitter: @koronacote

Para apoiar os missionários: http://www.domund.org

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por euvimparaquetodostenhamvida