«A única forma de negar a Deus é instaurando o mal: esse é o passo que tem dado nosso mundo»

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Juan Manuel de Prada, extensa entrevista

«A única forma de negar a Deus é instaurando o mal: esse é o passo que tem dado nosso mundo»

O autor de «A morte me encontrará» confessa que sua cosmovisão cristã é « dilacerada e tortuosa», e não «bom mocinho, beata nem piegas».

ReL -14 janeiro 2013 – religionenlibertad.com

Juan Manuel de Prada, retornando para saborear o sucesso de crítica e de vendas com uma novela após a publicação de “A morte me achará” (Destino), concedeu neste domingo a Alfonso Armada para ABC uma das entrevistas mais extensas e profundas de sua carreira literária.

Um católico nada “bom mocinho”
Definido por seu entrevistador como “um artesão da literatura que leva com graça sua condição de católico empenhado em dar testemunho contra o vento e a maré”, Prada abordou múltiplas perspectivas de sua percepção do mundo em todos os âmbitos: literário sobretudo, mas também filosófico, religioso, político, econômico…

“Eu sou um escritor bastante do contra nestes tempos. Primeiro porque tenho uma cosmovisão cristã, a qual já te converte em um escritor do contra. Mas além disso é uma cosmovisão cristã, mas dilacerada ou tortuosa, não uma cosmovision cristã luminosa, ou de ‘bom mocinho’, que é o que hoje em dia se vê mais”, afirmou resumindo. Nesse sentido se sente “muito identificado” com Miguel de Unamuno, ainda que sem mitificar o pensador vasco: “Mesmo chegando a conclusões distintas minha relação com o sobrenatural é muito unamuniano, de uma tensão forte”.

Há em Prada “uma rebelião constante, uma tensão muito forte e um desejo de crer para sentir-me imortal. Porque eu creio que essa é a vocação natural de todo ser humano. Se não, desde o momento em que deixamos de nos sentir imortais nesta vida nos carregamos de angústia, porque então te perguntas por que tenho necessidade de escrever, por que tenho a necessidade de comover-te com a beleza. Se não a contemplas como uma reverberação ou como um eco de uma beleza suprema que vais contemplar em outra vida de repente tudo deixa de ter sentido, parece como uma piada macabra”, explicou para dar o sentido último em sua carreira de escritor.

“Na Divisão Azul se alistaram quase 50.000 jovens espanhóis dos quais me atreveria a dizer que 90 por cento foi porque acreditavam firmemente que o comunismo devia ser combatido”, afirma Juan Manuel de Prada na entrevista. Que Deus intervenha em nossa vida.
Reclama-se que “existe ostentação de seus sentimentos religiosos, que é algo que também o distingue”, falou Armada. “Quando alguém vai tomando a sério certas coisas, como em meu caso que pode ser a fé”, responde, “é que mesmo que não queiras há algo que te arrasta, algo superior a ti. Há muita gente que tem posições ideológicas muito mais fortes que a minha e não tem estes problemas. Isto é ódio religioso. E eu por prudência ou por interesse procuraria dissimular mais isto. Mas não podes… Isto é também muito cristão. Deixar que Deus intervenha em nossa vida e não opor resistência, entre outras coisas porque tratei de opô-la e houve outros momentos em minha vida, por medo, por temor, pela hostilidade que descobres, no que me disse: vamos tratar de ser mais contemporizador ou mais camaleônico. Porém tampouco consegues”.

“A realidade é que eu creio nas coisas”, continua: “Um dos grandes problemas que tenho é precisamente por definir-me como uma pessoa católica. Muitos católicos, diante de minha literatura, se retraem um pouco. Suspeito que esperam encontrar em minha literatura… uma coisa beata, açucarada, piegas. E tropeçam com o contrário. É porque eu sou um escritor profano. Reivindico o ser católico, mas o ter umas inquietudes profanas e portanto em minhas novelas tem que estar presente o mal, realidades do mundo. Minha literatura é problemática”.

Da direita, mais que católicos
E evocando a profecia do ancião Simeão à Virgem Maria, de que Jesus seria “sinal de contradição”, Prada acrescenta: “E eu creio que de alguma maneira, hoje em dia, em nosso mundo, ser cristão é isto: ser sinal de contradição. Aí não há representação, mais além, repito, de que inevitavelmente ao assumir uma responsabilidade alguém muitas vezes se converte sem pretender na fachada de algumas posições”.

Mas atenção, porque essas posições podem não ser o que parecem: “Na Espanha, não nos enganemos, do mesmo modo que nos anos sessenta e setenta o católico foi utilizado pela esquerda, hoje em dia o católico também é utilizado pela direita e isto faz que muita gente que é mais da direita que católica se sente enganada contigo, ou vice-versa”.

Do mal ao teocentrismo
Como tem sublinhado em todas as interpretações sobre “A morte me encontrará”, nesta novela o mal está muito presente: o mal mediante o qual se pode conseguir um bem, um dilema moral tão velho quanto a Humanidade: “O mal pode chegar a ser algo rotineiro e não algo necessariamente aflitivo nem comprometedor para quem o comete. Mas o problema do mal é que te vai curtindo, vais criando calo, vais perdendo sensibilidade e o mal vai se apoderando de ti sem que perceba. O mal sempre te passa fatura”.

Um pouco mais adiante na conversa, Prada volta a mostrar sua colocação teocêntrica da existência: “Não creio que o homem seja o centro de todas as coisas, creio que Deus é o centro de todas as coisas, e o homem, como criatura, foi colocado aqui para exercer um domínio responsável pelo mundo de forma delegada, digamos assim”.

Dinheiro, como tal, o mercado, sim, o capitalismo não é nada
Em sua análise de nosso mundo, reitera sua crítica à idolatria do dinheiro: “Sempre se disse que Cristo era contra o dinheiro. Isso não é completamente certo. De fato, Cristo tinha um montão de amigos ricos, desde Nicodemos a José de Arimateia, graças ao qual pôde ser enterrado dignamente. Ele tem amigos ricos, recorre a eles… O que Ele tem contra o dinheiro é quando ele é convertido em religião, daí a frase «não podeis servir a dois senhores, não podeis servir a Deus e ao dinheiro»…. E isso é o que temos feito com o dinheiro: o dinheiro deixou de ser um sinal que significa o valor das coisas, e que se remetia em si mesmo ao valor que as coisas têm, e o temos convertido em algo espiritual, em algo que está desprendido da riqueza natural, que deixou de representar o valor das coisas e que representa um valor fantasmagórico, e assim nos pusemos a criar dinheiro fantasmagórico”.

Quanto ao capitalismo, faz uma distinção: “Que agentes livres possam trocar seus produtos, ou que possam vender seus produtos enquanto outros agentes livres também os compram, é estupendo. E podemos estar todos de acordo. Eu escrevo um livro, se o vendo a uma editora, a editora o vende aos senhores que o querem comprar. As relações humanas sempre foram tecidas assim. Mas o capitalismo ées também uma antropologia, não é uma maneira de organizar as relações humanas… Estamos sob um regime capitalista que é exatamente igual ao materialista que é o comunismo, e que mediante a deificação do dinheiro, e de um dinheiro desencarnado da riqueza natural das nações, se converteu em ídolo. Para alcançar esse ídolo se destruiu nossos vínculos sociais, se introduziu a imoralidade como regra de conduta estabelecida, consentida, admitida”…

Falha o diagnóstico
Por isso se irrita quando esse elemento é eliminado da relação de males contemporâneos: “Nunca se analisou como esta ordem econômica contribuiu para a destruição da família, sempre se fala do relativismo, do hedonismo, que diabos, o capitalismo, senhores! O capitalismo que nos obrigou a jornadas de trabalho enlouquecidas, que por avareza temos anteposto sobre o cuidado de nossas famílias outras questões. O capitalismo destruiu os cimentos de nossa vida e não nos temos dado conta”.

O bem e o mal: a lei natural
Em outro momento da entrevista, Prada recorda a doutrina clássica da lei natural: “Creio na lei natural. Precisamente porque creio em Deus creio que Deus a quis, porque a fé não pode ser obrigatória, é um dom que alguém recebe, outros não, mas o Deus em que creio conta com isso, porque nos deu liberdade. Creio que o homem tem uma noção natural do bem e do mal. Na realidade esta é a definição aristotélica de homem: o homem é o único animal com capacidade para fazer um juízo ético objetivo, com capacidade para discernir entre o bem e o mal. Isso é o que distingue o homem durante toda a história. Eu creio que sim, o homem é iluminado por este conhecimento natural ético. Absolutamente, sim. Um homem que não crê pode ser bom. Sim o creio”.

Qual é então o problema de nossa época? Que “a negação de Deus nada mais tem a ver com a incapacidade para encontrar a Deus ou com a falta de fé. A negação de Deus hoje é mais uma guerra. A única forma que o homem tem de negar a Deus na realidade é, da mesma maneira que tem de apagar a noção de Deus, é instaurando o mal. Esse é o passo que deu nosso mundo eu me atreveria a dizer nos dois últimos séculos. Eu creio que homens bons, com capacidade de discernimento ético ao longo da história tem havido sempre, e não acreditavam. O que há hoje é essa rebelião contra Deus que nos leva a entronizar uma anti-lei divina. Não somente é que nós não cheguemos aos Dez Mandamentos através da fé, sempre existiu a certeza moral, o que os mandamentos te impunham, mais além da adoração a Deus. Se não crês, o restante o podia compartilhar com qualquer pessoa. Mas hoje em dia não. Hoje em dia a negação de Deus vai acompanhada da negação desta capacidade de discernimento sobre o bem e o mal”.

E não é maniqueísmo: “Ao contrário… Em qualquer pessoa honesta há uma busca de Deus inevitável, porque a busca de Deus é a busca de um sentido na vida… Creio que a busca de Deus em qualquer pessoa se dá. Não posso imaginar que uma pessoa, salvo que esteja absolutamente fanatizada, que não se coloque esta pergunta. O que passa é a presença deste fenômeno novo de ser contra Deus”.

A morte, essa porta…
Por último, Juan Manuel de Prada afirma que não teme morrer: “Não, não me dá medo. Evidentemente desejo aproveitar esta caminhada terrena, mas lhe confessarei que de todos os dogmas da fé que professo o que me parece mais arrebatador e maravilhoso é a ressurreição da carne. Tenho uma imensa curiosidade em saber como será essa vida em que creio com a fé de um cavalo”.

Clique aqui para ler em sua integridade a entrevista em ABC, onde Juan Manuel de Prada aborda numerosos aspectos de sua visão de vida e a literatura.

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por euvimparaquetodostenhamvida