O famoso promotor do ateísmo Antony Flew começou a crer aos 81 anos… e escreveu «Deus existe»

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O famoso promotor do ateísmo Antony Flew começou a crer aos 81 anos… e escreveu «Deus existe»

Foi ateu desde os 15 anos até os 81 anos, prestigiado filósofo na Inglaterra, Escócia e Canadá, e cortês porém firme promotor do ateísmo. Os novos achados da ciência mudaram seu ponto de vista.

Pablo Gines/Rel – 8 janeiro 2013 – religionenlibertad.com

A editoria Trotta (Espanha) publicou recentemente “Deus existe”, o livro de argumentos a favor do deísmo que o famoso filósofo ex-ateu Antony Flew publicou em 2007 em inglês, levantando grande polvorosa.

O personagem e seu pensamento é o mais relevante, mas o contexto em que chega o é mais ainda.

Os ateus são relatados; os teístas, não
Como explica o filósofo da ciência Francisco José Soler Gil em seu interessantíssimo prólogo, em espanhol se traduzem rapidamente em grandes casas editoriais todas as obras de leitura ágil dos divulgadores internacionais do novo ateísmo grosseiro, enquanto que as trabalhadas respostas dos filósofos ou pensadores teístas ou cristãos não traduzem nunca ou só em pequenas editorias de muito pouca difusão.

“Qualquer nova publicação das figuras mais destacadas do grupo ateu -Richard Dawkins, Daniel Dennett, etc.- é traduzida em poucos meses para nossa língua. E divulgada como best seller pelas principais distribuidoras de livros”, denuncia Soler Gil. “Em troca, a maior parte das obras e autores do grupo teísta permanecem sem traduzir; ou, as que finalmente são traduzidas (com frequência com muito atraso), vêem à luz em editoras destinadas a um público minoritário”.

Nomes que precisam conhecer
“Resulta, por exemplo, muito difícil de explicar que um livro de tal repercussão nesta controvérsia como é ‘The coherence of theism’, de Richard Swinburne (publicado em 1979) não se encontre ainda acessível ao público castelhano. Mais ainda, das obras principais deste autor, somente uma, “A existência de Deus, foi traduzida recentemente (2011) pela editora São Estevão (Salamanca)”, continua o autor do prólogo.

“Só um pouco melhor tem sido o destino em nosso país de autores como John Polkinghorne, graças aos esforços da editora Sal Terrae (Santander). E muito pior o de autores como William Lane Craig, Robin Collins, Michael Heller, ou até o mesmíssimo Alvin Plantinga, por citar tão só alguns nomes de uma corrente de pensamento séria, pujante e quase completamente desconhecida em nosso âmbito cultural”.

E Soler Gil acrescenta sua própria experiência: “Há já alguns anos, eu mesmo tentei contribuir ao “descobrimento” em nosso país desta nova escola de teísmo filosófico mediante a publicação na editora BAC da obra conjunta ‘Deus e as cosmologias modernas (2005), em que recolhia uma amostra das contribuições de alguns autores deste movimento em torno da questão das relações entre a cosmologia atual e a teologia. No entanto, nem esta tentativa nem outras conseguiram até agora romper o muro de silêncio, ou de indiferença, que floresce em nosso país sobre o pensamento teísta contemporâneo”.

Ateu notório que mudou sua visão
Assim, a editora Trotta vai contra-corrente ao traduzir com o título “Deus existe” o livro de 2007 “There is a God: How the World´s Most Notorious Atheist Changed his Mind” (“Há um Deus: como o ateu mais notório do mundo mudou de opinião”, de Antony Flew, com a ajuda de Roy Abraham Varghese

Pode-se debater quão notório era Flew como ateu, mas suas credenciais filosóficas são elevadas. A ele se vai cada vez que numa discussão na internet alguém comenta a falácia de “nenhum verdadeiro escocês” (“nenhum verdadeiro escocês cometeria esse crime; vá!, o cometeu?, então é que não era um verdadeiro escocês”; desenvolveu Flew em 1975 em seu livro ‘Thinking About Thinking: Do I Sincerely Want to Be Right?’).

Filho de pastor, ateu aos 15 anos
Mesmo sendo filho de um ministro metodista, aos 15 anos Anthony Flew não tinha mais fé. De estudante ia aos debates do Club Sócrates de C.S. Lewis em Oxford, cuja inteligência admirava, mas cujos argumentos éticos a favor de Deus não lhe convenciam. O problema do mal no mundo, entre outros, lhe convenceram então de que não havia Deus, ou mais ainda, de que era um conceito vazio.

Flew foi o pensador inglês que, desde a década de 50 à de 80, ofereceu argumentos mais refinados para a defesa do ateísmo. Aprendendo da metodologia jurídica defendeu que como não há culpado até que se demonstre a culpabilidade (presunção de inocência) é preciso partir da “presunção do ateísmo” e que a colocação de prova deveria recair sobre o teísmo.

Porém Flew mudou de opinião à medida que estudava mais biologia, e muito influenciado por seu colega filósofo Richard Swinburne, um inglês convertido do anglicanismo à ortodoxia grega.

Definamos bem as coisas
Por exemplo, Flew sempre insistiu em que em filosofia é importantíssima para definir as coisas, e a definição de Deus de Swinburne (um deus deísta, filosófico, que previu a revelação) lhe parecia operante.

Pelo contrário, criticava o divulgador do ateísmo militante Richard Dawkins que ” Embora o índice de ‘A Desilusão de Deus’ observe seis referências ao deísmo, não dá nenhuma definição do deísmo palavra.” Isso permite a Dawkins sugerir em suas referências que os deístas são uma miscelânea de crentes em tal ou qual coisa. A verdade, que Dawkins deveria ter aprendido antes de levar o livro à imprensa, é que os deístas creem na existência de um Deus, mas não o de nenhuma revelação”. Deísmo filosófico: essa era a postura de Flew desde 2004.

Mudar aos 81 anos
Flew começou a apresentar-se como deísta em diversas entrevistas e publicações em 2004: tinha 81 anos, e acreditava que a evidência apoiava a existência de uma inteligência criadora, e que o azar e a necessidade ou o simples materialismo não eram suficientes para explicar a complexidade do mundo.

10 novidades que é preciso examinar
Em 2005, em sua nova edição de “God and philosophy” (Deus e filosofia), se estabeleceu uma série de novos temas ligados à ciência e o pensamento que todo pensador que aborde o tema de Deus deveria ter em conta:

– a definição de Deus que dá Richard Swinburne, teólogo britânico convertido à ortodoxia grega
– os argumentos de Swinburne sobre o Deus cristão em seu livro “Is there a God?” (Há um Deus?)
– a nova forma de ver o castigo eterno no inferno na doutrina anglicana
– colocar se houve só um big bang e se com ele começou o tempo
– examinar o tema dos universos múltiplos
– examinar o argumento de que o universo está “bem ajustado” (“fine-tuning”)
– examinar se há uma explicação materialista que mostre que a matéria vivente surge da não vivente
– examinar se há uma explicação materialista que mostre que da matéria vivente não reprodutora pode surgir seres vivos com capacidade reprodutiva
– o conceito de inteligência ordenada do livro “The Wonder of the World” (Maravilha do Mundo), de Roy Abraham Varghese
– o conceito deísta ou aristotélico de Deus, visto da teologia natural, tal como o desenvolve David Conway.

O livro da discórdia atéia
Em 2007, ele e o divulgador norte-americano de origem indigena Roy Abraham Varghese firmaram juntos um livro intitulado, provocativamente, “There is a God”(Deus existe), que é esse que agora se traduziu ao espanhol.

Os gurus midiáticos do novo ateísmo reagiram ferozmente. Acusou-se a Varghese de ter escrito o livro ele sozinho e de ter enganado a Flew para firmá-lo. Baseavam suas acusações, por exemplo, em que no livro aparecia muito vocabulário de inglês norte-americano, não britânico. Falou-se insistentemente de “senilidade” e “manipulação”.

Flew respondeu através da editora, assegurando que Varghese deu a forma escrita ao texto, mas que o pensamento e as ideias eram as do veterano filósofo inglês. No ano seguinte, Flew insistiu que o livro era seu em outra carta.

Em 8 de abril de 2010 morreu o filósofo com 87 anos. Na imprensa mundial (na espanhola quase nada) se fez eco de que um famoso ateu de toda a vida tinha morrido como deísta. Os adeptos do ateísmo irritados voltaram a falar de “senilidade”, sem provas médicas que comprovassem..

A ateia conservadora e o escocês tomista
Um caso que exemplifica um ateísmo menos feroz foi o de Jillian Becker, conhecida pessoal de Flew (“ambos éramos ateus conservadores”, disse ela) que da California escreveu à Inglaterra, ao “Telegraph”, admitindo que Flew lhe tinha explicado que só a existência de “uma inteligência” pode explicar o universo. Mas o lamentava e protestava: “é porque o homem que melhor defendeu o ateísmo desde David Hume há de recordar-se como um deísta só porque se lhe abrandaram os miolos nos seus últimos anos?”

Em resposta a Becker escreveu o filósofo católico escocês John Haldane, tomista de renome e pai de familia. Haldane recorda suas longas conversas com Flew em 2004 quando filmavam um documentário sobre filósofos, Deus e a ciência, dirigido por Varghese.

“Faltava-lhe seu antigo vigor e agudeza e ele mesmo disse que sofria algo de afasia dinâmica, mas era claro sobre os temas que lhe tinham levado a pensar que a estrutura fundamental física do universo e tipos particulares de complexidade microbiológicas apoiavam a hipótese de uma fonte criadora inteligente”, escreveu Haldane. E acrescentou: “tenho cartas escritas a mão de todo um ano debatendo este raciocínio. Em abril de 2005 escreveu sobre sua conversão ao deísmo einsteniano. Também mencionou sua admiração pela liderança de João Paulo II.”

Para Haldane, “é um erro centrar a atenção em seu grau de vigor mental; ele insistiria em que nos perguntemos quão bons são seus argumentos.”

Em um de seus textos, Flew explicou o que lhe tinha levado à sua mudança.

A vida requer Inteligência, não sopa
“Dois fatores foram especialmente decisivos. Um foi minha crescente empatia com a ideia de Einstein e de outros cientistas notáveis de que tinha que ter uma Inteligência atrás da complexidade integrada do universo físico. O segundo era minha própria ideia de que a complexidade integrada da vida —que é muito mais complexa que o universo físico— só pode ser explicada em termos de uma fonte inteligente.

Creio que a origem da vida e da reprodução simplesmente não podem ser explicados desde uma perspectiva biológica, apesar dos numerosos esforços para fazê-lo. Em cada ano que passa, quanto mais descobrimos a riqueza e a inteligência inerente à vida, menos possível parece que uma sopa química possa gerar pela arte de magia o código genético.

Se me fez palpável que a diferença entre a vida e a não-vida era ontológica e não química. A melhor confirmação deste abismo radical é o cômico esforço de Richard Dawkins para argumentar em ‘A Desilusão de Deus’ que a origem da vida pode atribuir-se a um “azar afortunado”. Se este é o melhor argumento que se tem, então o assunto fica estabelecido. Não, não escutei nenhuma voz. Foi a evidência que me conduziu à esta conclusão.”

Um ateu respeitado, um deísta sério
Soler Gil assinala que nas obras a favor do ateísmo que escreveu Flew “não encontramos desqualificações globais, nem caricaturas grosseiras do teísmo, mas argumentos, expostos em detalhe, com serenidade, e com um autêntico espírito inquisitivo”. Seus debates com Swinburne, por exemplo, são um exemplo de respeito mútuo.

“A seriedade com que Anthony Flew abordou desde o princípio os argumentos teístas, seu esforço por formulá-los do modo mais forte possível, antes de empreender sua refutação, sua confiança no poder dos argumentos para resolver a controvérsia entre teísmo e ateísmo, e sua negativa para utilizar como chave de sua análise o recurso a tais ou quais interesses ocultos no discurso teísta, convertiam a Flew em um ateu muito pouco comum”, escreve Soler Gil.

Nietzsche, Marx e Freud não usavam a razão
E o compara com outros casos. Assim, por exemplo, Nietzsche, Marx e Freud não criticavam a religião desde a razão, não buscavam a argumentação, mas buscavam suspeitas contra ela: “a vontade de poder, ou a infra-estrutura econômica, ou as pulsações do subconsciente, ou outras quaisquer (desde o medo da morte ao instinto sexual ou as determinações genéticas). Em todo caso, não à razão”, denuncia Soler Gil.

E com os ateus modernos, o mesmo. “Não é de estranhar que os propagandistas do ateísmo contemporâneo dediquem pouco tempo em discutir os argumentos teístas. E que os estudos de um Swinburne, ou um Plantinga, ou um Polkinghorne, ou um Jaki, por citar somente alguns nomes, sejam simplesmente ignorados por eles.

A recepção destes autores entre os que deveriam ser seus oponentes intelectuais se reduzirá, no final, à alguma data vaga, uma nota ao pé da página, acompanhada da insinuação mais ou menos latente dos possíveis motivos que subjazem às suas obras: um será sacerdote, outro tradicionalista, o terceiro virá de uma família de teólogos, e o quarto será tal ou qual coisa, ou se tratará, como no caso de Flew, de um ancião no declive de suas faculdades mentais, e manipulado por estes e aqueles. Em definitivo, nada novo debaixo do sol”, assinala Soler Gil em seu prólogo.

Confiou na razão e a seguiu
Por isso Flew é um personagem peculiar: por ter sido um ateu verdadeiramente filósofo. Em uma época de desconfiança para com a razão, a ele lhe guiou “uma confiança instintiva no poder da razão, que encontrou finalmente seu sentido no momento em que os argumentos conduziram ao filósofo a concluir que a fonte, tanto desse poder como do modo de ser da natureza em geral, é a racionalidade divina”, conclui Soler Gil.

Pode-se adquirir o livro, por exemplo, na Casa do Livro (aqui).

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por euvimparaquetodostenhamvida